FAMÍLIA ANGELO

Tronco do Triângulo Mineiro

Autor: Edson Angelo Muniz
 

NEIM E O ÔNIBUS 44

       
Por Albéres Augustinho Ribeiro

 

 

 

 

Conheci João Angelo de Oliveira, o Neim, no final dos anos 60. Ele estava desempregado e eu tinha um ônibus em "stand-by", com serviços esporádicos.

O Neim havia sido motorista de ônibus da empresa Expresso São João, e pleiteava o direito de exploração de uma linha regular de passageiros: a do trecho Ituiutaba-Região do São Lourenço, inclusive Santa Rita. Tal direito era de uma grande empresa, a Rápido Triângulo, com frota de quase vinte ônibus, que não se interessava em utilizar aquela linha. Então, o popular Neim negociou o direito com a Rápido Triângulo, quando assinou diversas promissórias, ficando em suspenso a compra de um ônibus.

Motorista experiente, Neim, no antigo emprego, dirigia o veículo com o n.º de frota 44, de carroceria ampliada, com 36 assentos, sendo que o usual eram 28. Sobre esse episódio sei de uma curiosidade, contada por ele: "Certa ocasião, com número excessivo de passageiros à espera, surgiu um impasse. Alguém reclamou, nervoso, a impossibilidade de embarcar tanta gente, ao que o Neim respondeu: 'Esse é o 44! Então dá, gente, vamo'imbora!' — contentou-se o tal."

Quis o destino que um dia esse carro, o famoso 44, viesse parar em minhas mãos. Eu tinha o ônibus, velho conhecido do Neim, mas não tinha o direito sobre a linha; ele tinha esse direito, mas não tinha o ônibus para usufruir do direito de explorar a linha. Daí surgiu a ideia de uma sociedade, reforçada quando o Neim deu de cara com o 44, com o qual me pareceu ter uma ligação quase afetiva.

Mas nós precisávamos, ainda, da transferência do direito sobre a linha, e o meu sócio não conseguira quitar as promissórias emitidas em favor da Rápido Triângulo. Com meu aval naqueles documentos tudo se normalizou, e a linha começou a operar, com razoável demanda de passageiros. E, enquanto o Neim pilotava o 44 pelas estradas de terra, rumo ao São Lourenço, eu desempenhava minhas funções no Banco do Brasil.

Entretanto, algum tempo depois, à medida que as promissórias venciam, eu, na qualidade de avalista, passei a resgatá-las. Então, deliberamos manter a parceria, ele com participação acima de cinquenta por cento da venda de passagens, e mão de obra de manutenção do veículo. Era comum ver o Neim, na rua em frente à sua residência, deitado sob a carroceria do 44, todo sujo de graxa e poeira.

Em determinada época, ainda no final dos anos 60, Neim pediu que seu irmão, Lázaro Padeiro, o substituísse, pois desejava se dedicar a outra atividade. Então, nossa sociedade foi desfeita; mas ficou na lembrança a minha parceria com o Neim no desbravamento das linhas de transporte de passageiros e mercadorias, por estradas de terra, na região de Ituiutaba.

 

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escrita por Edson Angelo Muniz.

 

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relatada pelo Tomezinho.

   

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